Um ano depois do encerramento do blog, apenas para lembrar que a dialética continua no
NOVA DIALÉTICA
Elogio da dialética
Política, Direito e Cultura em geral.
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Últimos posts neste blog:
Um ano depois, um lembrete...
Publicado: 2012-01-15 às 17:40
Epílogo
Publicado: 2011-01-13 às 15:30
ELOGIO DA DIALÉTICA
15/ 06/ 2006 - 13/ 01/ 2011
Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.
(Sergei Iessiênin, trad. Augusto de Campos)
15/ 06/ 2006 - 13/ 01/ 2011
Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.
(Sergei Iessiênin, trad. Augusto de Campos)
Duas histórias de bar
Publicado: 2011-01-04 às 17:32
Havia muitos anos eu não o encontrava. Trabalhava na banca de jornais aos pés do edifício onde morei em Copacabana, e sempre o via subindo de bicicleta a ladeira onde ficava o prédio. Após tantos anos, lá estava ele- grata surpresa. Fiz questão de ir cumprimentá-lo: lembrava de mim, na verdade não era muito mais velho que eu. Palavras amistosas, alguns comentários sobre aquela época. Daí falamos (não sei porquê) em objetivos, perguntei qual era o dele. Respondeu-me com simplicidade, quase dando de ombros: "ficar vivo". Aquilo me tocou e, como mais não podia, deixei uma cerveja paga para ele.
Daquele bar, aliás, me lembro a monotonia. Desfavoravelmente situado, quase à entrada do túnel da Barata Ribeiro, tinha poucos frequentadores: passávamos o tempo olhando a rua vazia, enquanto as garrafas eram esvaziadas. "O resto é silêncio", diria Hamlet de Shakespeare, salvo dias de jogo, quando enchia, como aquele em que o Fluminense derrotou o São Caetano (não me lembro qual campeonato, mas acho que teve gol de Magno Alves) e tomei um porre de fogo paulista.
*
Outro bar, outras pessoas. Este outro sujeito nos foi apresentado por um conhecido em comum: também torcedor do Fluminense, morava em Nova Iguaçu. Excelente conversador e de boas maneiras, mas tinha um passado sombrio, que eu descobri depois. Logo no primeiro encontro, após horas de conversa e bebida em um show na orla de Botafogo, me disse que eu, doravante, seria um de seus melhores amigos. Terno como todo bêbado, agradeci e disse que era recíproco.
O tal passado sombrio era o seguinte: matara, contou ele, o estuprador de sua irmã. Uma situação que choca o pequeno-burguês morador da zona sul, mas que é algo como uma realidade cotidiana nos grotões da Baixada Fluminense. Contou detalhes: disse como inicialmente não queria, mas como os amigos incentivaram, "botaram pilha", como se diz, como colocaram a arma na mão dele. Qualquer um pode entender o ódio: a irmã mais nova violada, brutalizada, o estuprador conhecido na vizinhança, próximo, vivendo como se nada tivesse ocorrido. Talvez houvesse deboche; talvez houvesse o sorriso cínico nos lábios, ao passar diante dos familiares da estuprada e continuar impune. Na Baixada Fluminense a polícia é lenta- quando há. Ao menos, anos atrás (quando se passou isso) era assim. Como um irmão, que tenha um mínimo de hombridade, pode aceitar isso por muito tempo?
Não justifico o ato. A justiça com as próprias mãos é coisa do passado, lá das trevas medievais para trás- além de ser crime na nossa sociedade. Não justifico, mas entendo o ato.
E o ato foi emboscar o estuprador, arma na mão. Primeiro meu amigo tentou repetir o gesto, abominável (mas que, repito, podemos entender), de estupro, tentando fazer com o estuprador o que o mesmo fizera com sua irmã. Não conseguiu sequer começar: isso também é compreensível. Seria um monstro se tivesse conseguido. Eu, ouvindo o relato, teria saído correndo nesse exato momento, se ele tivesse dito que conseguira. Não conseguiu currar o estuprador, portanto, mas o torturou à base de cutucadas de alfinete até que, enojado daquilo tudo, disparou a arma.
Ficou dias sonhando, pesadelos grotescos, com o estuprador assassinado, me disse. Muito, muito compreensível: só monstros não sonhariam. O irmão que buscou resgatar a honra da família não é um monstro: apenas alguém que, em uma terra sem lei, fez o que achou ser o certo. Não diz Augusto dos Anjos?
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Mas o irmão vingador, ora assassino, não era uma fera. Era de fino trato, mesmo cortês.
Não sei que problemas com a Justiça teve depois disso. Se é que os teve: naquela região vidas valem pouco. Assim como não se dispuseram a apurar o estupro da moça, muito provavelmente não deram a mínima para a morte do estuprador. Quando o Poder Público não se faz presente, são as pessoas que resolvem seus próprios problemas, e voltamos às trevas medievais citadas acima. O que choca é que tanta gente viva neste faroeste caboclo, entregues à própria sorte, armas em punho para vingar uma irmã violentada.
Essa história que estou contando tem vários anos. Mas todos sabemos que as condições na Baixada Fluminense não melhoraram muito desde então: as velhas oligarquias, os velhos desrespeitos à lei e à vida. E o povo manietado.
A última vez que encontrei meu amigo, estava para ser pai: uma menina vinha a caminho. Desejei felicidades, pedindo, em pensamento, que ela herdasse um mundo mais humano, onde moças não fossem estupradas e irmãos não precisassem, com sangue, resgatar a honra.
Daquele bar, aliás, me lembro a monotonia. Desfavoravelmente situado, quase à entrada do túnel da Barata Ribeiro, tinha poucos frequentadores: passávamos o tempo olhando a rua vazia, enquanto as garrafas eram esvaziadas. "O resto é silêncio", diria Hamlet de Shakespeare, salvo dias de jogo, quando enchia, como aquele em que o Fluminense derrotou o São Caetano (não me lembro qual campeonato, mas acho que teve gol de Magno Alves) e tomei um porre de fogo paulista.
*
Outro bar, outras pessoas. Este outro sujeito nos foi apresentado por um conhecido em comum: também torcedor do Fluminense, morava em Nova Iguaçu. Excelente conversador e de boas maneiras, mas tinha um passado sombrio, que eu descobri depois. Logo no primeiro encontro, após horas de conversa e bebida em um show na orla de Botafogo, me disse que eu, doravante, seria um de seus melhores amigos. Terno como todo bêbado, agradeci e disse que era recíproco.
O tal passado sombrio era o seguinte: matara, contou ele, o estuprador de sua irmã. Uma situação que choca o pequeno-burguês morador da zona sul, mas que é algo como uma realidade cotidiana nos grotões da Baixada Fluminense. Contou detalhes: disse como inicialmente não queria, mas como os amigos incentivaram, "botaram pilha", como se diz, como colocaram a arma na mão dele. Qualquer um pode entender o ódio: a irmã mais nova violada, brutalizada, o estuprador conhecido na vizinhança, próximo, vivendo como se nada tivesse ocorrido. Talvez houvesse deboche; talvez houvesse o sorriso cínico nos lábios, ao passar diante dos familiares da estuprada e continuar impune. Na Baixada Fluminense a polícia é lenta- quando há. Ao menos, anos atrás (quando se passou isso) era assim. Como um irmão, que tenha um mínimo de hombridade, pode aceitar isso por muito tempo?
Não justifico o ato. A justiça com as próprias mãos é coisa do passado, lá das trevas medievais para trás- além de ser crime na nossa sociedade. Não justifico, mas entendo o ato.
E o ato foi emboscar o estuprador, arma na mão. Primeiro meu amigo tentou repetir o gesto, abominável (mas que, repito, podemos entender), de estupro, tentando fazer com o estuprador o que o mesmo fizera com sua irmã. Não conseguiu sequer começar: isso também é compreensível. Seria um monstro se tivesse conseguido. Eu, ouvindo o relato, teria saído correndo nesse exato momento, se ele tivesse dito que conseguira. Não conseguiu currar o estuprador, portanto, mas o torturou à base de cutucadas de alfinete até que, enojado daquilo tudo, disparou a arma.
Ficou dias sonhando, pesadelos grotescos, com o estuprador assassinado, me disse. Muito, muito compreensível: só monstros não sonhariam. O irmão que buscou resgatar a honra da família não é um monstro: apenas alguém que, em uma terra sem lei, fez o que achou ser o certo. Não diz Augusto dos Anjos?
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Mas o irmão vingador, ora assassino, não era uma fera. Era de fino trato, mesmo cortês.
Não sei que problemas com a Justiça teve depois disso. Se é que os teve: naquela região vidas valem pouco. Assim como não se dispuseram a apurar o estupro da moça, muito provavelmente não deram a mínima para a morte do estuprador. Quando o Poder Público não se faz presente, são as pessoas que resolvem seus próprios problemas, e voltamos às trevas medievais citadas acima. O que choca é que tanta gente viva neste faroeste caboclo, entregues à própria sorte, armas em punho para vingar uma irmã violentada.
Essa história que estou contando tem vários anos. Mas todos sabemos que as condições na Baixada Fluminense não melhoraram muito desde então: as velhas oligarquias, os velhos desrespeitos à lei e à vida. E o povo manietado.
A última vez que encontrei meu amigo, estava para ser pai: uma menina vinha a caminho. Desejei felicidades, pedindo, em pensamento, que ela herdasse um mundo mais humano, onde moças não fossem estupradas e irmãos não precisassem, com sangue, resgatar a honra.
Do velho esporte bretão
Publicado: 2010-12-15 às 17:05
Há coisas que exorbitam sua esfera de origem. O exemplo clássico para mim é o futebol. A princípio um jogo, um passatempo, o futebol acaba por envolver uma gama enorme de conceitos sociais. Aprende-se por exemplo disciplina, autocontrole, capacidade de resistir à frustração, fairplay, espírito de grupo etc. etc. O futebol -e qualquer esporte- não é portanto apenas jogo, apenas lazer, e sim uma poderosa ferramenta de formação de caráter. Formação ou deformação, claro: se o que é passado à garotada for a visão distorcida do esporte, do ganhar a qualquer custo, do egoísmo e do vilipêndio ao adversário. Mas vejamos as coisas apenas por sua ótica positiva. Por exemplo, o superego não está no futebol? Claro que está, na figura do juiz, "o homem do apito", reprimindo o que não pode, castigando os excessos. Deixo para os sociólogos e psicólogos, mas será que não poucos garotos, largados, abandonados à própria sorte, não aprenderam a respeitar a figura da "autoridade" (momentaneamente que seja) através de um árbitro de futebol? Assim como no futebol, os excessos na vida são castigados.
E as novelas da Globo? Sou um crítico contumaz: considero o universo da frivolidade e da banalidade. Mas ocorre o seguinte: é entretenimento de massa. As pessoas gostam daquilo. Por que não aceitar que muita gente se instruiu e aprendeu via novelas da Globo? As campanhas da Glória Perez, por exemplo, geralmente trazem temas modernos, em voga- drogas, deficiências mentais, barrigas de aluguel, clonagem humana. Por que não aproveitar esse potencial, e utilizar essa ferramenta? Todos têm televisão em casa. O alcance de um instrumento de massas desse é formidável. Por isso que já não sou a favor do fim das telenovelas. Sou a favor é da sua maior qualidade e de sua função social.
Ora. A CLT se inseriu no contexto fascista de cooptar a classe trabalhadora, durante a ditadura varguista. Não por acaso foi inspirada na "Carta del Lavoro" de Mussolini. Mas: não é porque direitos trabalhistas tiveram origem fascista, é que deixaremos de aproveitá-los. É a velha história, a de usar as armas do sistema contra ele próprio. A Globo é direita pura -pode não ser fascista, mas já teve episódios fascistas, como o endosso ao golpe militar dos anos 60- mas não é por causa disso que, necessariamente, tudo que venha dela será ruim. O binário, aquele que "simplifica a realidade para não cair em tentação" (Trotsky), pode até dizer que sim. Mas o binário é um sujeito equivocado até a raiz do cabelo. A Globo, sem deixar de ser direita pura (às vezes fascista), pode também se prestar a desempenhar função social.
(Aliás, os meios de comunicação são concessões públicas; deveriam SEMPRE desempenhar função social. Mas na prática não funciona assim, só que isso é assunto pra outro post)
Comecei falando dos benefícios do futebol, que extrapolam o mero jogo. Isso tudo no aspecto puramente subjetivo, pessoal; porque, se formos falar também da influência do futebol na economia, daí atingiremos patamares gigantescos. Do catador de latinhas de cerveja na saída dos estádios à CBF, todos, de um jeito ou de outro, ganham algo. Uns mais outros menos, naturalmente, como é de praxe na sociedade de classes. Mas o catador de latinhas, o ambulante do cachorro-quente, o artesão e vendedor de bandeiras e faixas, o gandula, o bandeirinha, o massagista, o roupeiro etc. etc. etc. , quanta gente, meu deus, precisa do futebol. As cifras são gigantescas: principalmente colocando no bolo os megaastros com seus salários turbinados. Quem quiser ter uma noção dos fantastiquilhões em jogo (com trocadilho), olhe este sítio. Acho esses valores obscenos. Mas essa é a sociedade de classes. Não faço apologia do esporte capitalista nem quero melhorá-lo; quero é um esporte livre do capitalismo, mas isso ainda não é para agora.
E meu velho amigo Alexandre resmungava, "não tenho time, eles tão cheios de dinheiro e não ligam a mínima". Alexandre estava certo. Vivia às voltas com suas paranóias, mais imaginárias que reais, mas nesse ponto estava certo. Não me lembro bem a primeira vez em que ouvi ele dizer isso: acho que foi, anos atrás, durante um campeonato carioca, Fluminense versus Americano de Campos. Eu havia estendido na varanda de casa, tremeluzente, frágil (pela qualidade do material, jamais pelo que representa), uma bandeira do Tricolor. Ele torceu o nariz e soltou a pérola, acho que foi isso. Mas como eu era o anfitrião, teve que aturar pacientemente o desenrolar da partida, vencida pelo Fluzão, 5 a 1 se não me engano. Daí emendamos, um pouco mais tarde, com o legendário Garage da Praça da Bandeira, antigo reduto hardcore da cidade.
Mas, nisso de futebol, Alexandre está correto. "Eles" realmente estão enchendo as burras, enquanto nós torcedores nada obtemos. Mas é mais complexo que isso. Quando as pessoas criticam o futebol, então, penso na crítica à religião. Como nesta, as pessoas se apegam a um aspecto, a um enfoque: e o ópio fica cristalizado. Ora, nada é eternamente ópio, ser ópio ou fermento vai depender do contexto. Futebol não é apenas os milhões de dólares do Ronaldo "Fenômeno" (sic). É também os milhões de garotos tirados da marginalidade (o próprio Ronaldo, quem pode dizer?). Isso é sociedade de classes. O que tivermos às mãos, devemos utilizar.
E mesmo para além de todo papel do futebol, na economia, na vida social: o torcedor, ganha, sim, e muito. Não em dinheiro. Já fala o bordão, "coisas que o dinheiro não compra". A emoção de uma partida só o torcedor pode explicar. Um Alexandre jamais compreenderia. Durante noventa minutos sentimos do ódio à glória, passando pela apreensão e entusiasmo. Tudo junto. Como explicar para o Alexandre o gol marcado aos 40 do segundo tempo? O que vem aí é uma descarga de pura energia, palavrões e socos no ar, punhos crispados e urros.
Para quem vê de fora é irracional.
E talvez seja: mas por que diabos precisamos agir sempre com a razão? A emoção precisa aflorar também. O futebol, assim, serve como uma válvula de escape inofensiva (ao menos deveria ser inofensiva: há os que matam por futebol, mas este post, falei acima, busca apenas a ótica positiva). Às vezes penso, mas também isso eu deixo para os psicólogos e sociólogos, que a vida moderna castrou, de certo modo, o ser humano. Antes havia a luta pela sobrevivência, a caça e as guerras. Ninguém pode dizer que não era uma vida mais intensa, comparada ao cotidiano modorrento de hoje. Talvez o futebol, nesse sentido, supra isso, por noventa minutos que sejam, nossa necessidade de emoção, de movimento, de vida.
*
Este post é só uma desculpa para gritar o seguinte: FLUZÃO CAMPEÃO BRASILEIRO DE 2010!!!!!
Fica aqui a homenagem ao "Time de Guerreiros" e a todos que participaram da saga. Ano que vem tem mais.
E as novelas da Globo? Sou um crítico contumaz: considero o universo da frivolidade e da banalidade. Mas ocorre o seguinte: é entretenimento de massa. As pessoas gostam daquilo. Por que não aceitar que muita gente se instruiu e aprendeu via novelas da Globo? As campanhas da Glória Perez, por exemplo, geralmente trazem temas modernos, em voga- drogas, deficiências mentais, barrigas de aluguel, clonagem humana. Por que não aproveitar esse potencial, e utilizar essa ferramenta? Todos têm televisão em casa. O alcance de um instrumento de massas desse é formidável. Por isso que já não sou a favor do fim das telenovelas. Sou a favor é da sua maior qualidade e de sua função social.
Ora. A CLT se inseriu no contexto fascista de cooptar a classe trabalhadora, durante a ditadura varguista. Não por acaso foi inspirada na "Carta del Lavoro" de Mussolini. Mas: não é porque direitos trabalhistas tiveram origem fascista, é que deixaremos de aproveitá-los. É a velha história, a de usar as armas do sistema contra ele próprio. A Globo é direita pura -pode não ser fascista, mas já teve episódios fascistas, como o endosso ao golpe militar dos anos 60- mas não é por causa disso que, necessariamente, tudo que venha dela será ruim. O binário, aquele que "simplifica a realidade para não cair em tentação" (Trotsky), pode até dizer que sim. Mas o binário é um sujeito equivocado até a raiz do cabelo. A Globo, sem deixar de ser direita pura (às vezes fascista), pode também se prestar a desempenhar função social.
(Aliás, os meios de comunicação são concessões públicas; deveriam SEMPRE desempenhar função social. Mas na prática não funciona assim, só que isso é assunto pra outro post)
Comecei falando dos benefícios do futebol, que extrapolam o mero jogo. Isso tudo no aspecto puramente subjetivo, pessoal; porque, se formos falar também da influência do futebol na economia, daí atingiremos patamares gigantescos. Do catador de latinhas de cerveja na saída dos estádios à CBF, todos, de um jeito ou de outro, ganham algo. Uns mais outros menos, naturalmente, como é de praxe na sociedade de classes. Mas o catador de latinhas, o ambulante do cachorro-quente, o artesão e vendedor de bandeiras e faixas, o gandula, o bandeirinha, o massagista, o roupeiro etc. etc. etc. , quanta gente, meu deus, precisa do futebol. As cifras são gigantescas: principalmente colocando no bolo os megaastros com seus salários turbinados. Quem quiser ter uma noção dos fantastiquilhões em jogo (com trocadilho), olhe este sítio. Acho esses valores obscenos. Mas essa é a sociedade de classes. Não faço apologia do esporte capitalista nem quero melhorá-lo; quero é um esporte livre do capitalismo, mas isso ainda não é para agora.
E meu velho amigo Alexandre resmungava, "não tenho time, eles tão cheios de dinheiro e não ligam a mínima". Alexandre estava certo. Vivia às voltas com suas paranóias, mais imaginárias que reais, mas nesse ponto estava certo. Não me lembro bem a primeira vez em que ouvi ele dizer isso: acho que foi, anos atrás, durante um campeonato carioca, Fluminense versus Americano de Campos. Eu havia estendido na varanda de casa, tremeluzente, frágil (pela qualidade do material, jamais pelo que representa), uma bandeira do Tricolor. Ele torceu o nariz e soltou a pérola, acho que foi isso. Mas como eu era o anfitrião, teve que aturar pacientemente o desenrolar da partida, vencida pelo Fluzão, 5 a 1 se não me engano. Daí emendamos, um pouco mais tarde, com o legendário Garage da Praça da Bandeira, antigo reduto hardcore da cidade.
Mas, nisso de futebol, Alexandre está correto. "Eles" realmente estão enchendo as burras, enquanto nós torcedores nada obtemos. Mas é mais complexo que isso. Quando as pessoas criticam o futebol, então, penso na crítica à religião. Como nesta, as pessoas se apegam a um aspecto, a um enfoque: e o ópio fica cristalizado. Ora, nada é eternamente ópio, ser ópio ou fermento vai depender do contexto. Futebol não é apenas os milhões de dólares do Ronaldo "Fenômeno" (sic). É também os milhões de garotos tirados da marginalidade (o próprio Ronaldo, quem pode dizer?). Isso é sociedade de classes. O que tivermos às mãos, devemos utilizar.
E mesmo para além de todo papel do futebol, na economia, na vida social: o torcedor, ganha, sim, e muito. Não em dinheiro. Já fala o bordão, "coisas que o dinheiro não compra". A emoção de uma partida só o torcedor pode explicar. Um Alexandre jamais compreenderia. Durante noventa minutos sentimos do ódio à glória, passando pela apreensão e entusiasmo. Tudo junto. Como explicar para o Alexandre o gol marcado aos 40 do segundo tempo? O que vem aí é uma descarga de pura energia, palavrões e socos no ar, punhos crispados e urros.
Para quem vê de fora é irracional.
E talvez seja: mas por que diabos precisamos agir sempre com a razão? A emoção precisa aflorar também. O futebol, assim, serve como uma válvula de escape inofensiva (ao menos deveria ser inofensiva: há os que matam por futebol, mas este post, falei acima, busca apenas a ótica positiva). Às vezes penso, mas também isso eu deixo para os psicólogos e sociólogos, que a vida moderna castrou, de certo modo, o ser humano. Antes havia a luta pela sobrevivência, a caça e as guerras. Ninguém pode dizer que não era uma vida mais intensa, comparada ao cotidiano modorrento de hoje. Talvez o futebol, nesse sentido, supra isso, por noventa minutos que sejam, nossa necessidade de emoção, de movimento, de vida.
*
Este post é só uma desculpa para gritar o seguinte: FLUZÃO CAMPEÃO BRASILEIRO DE 2010!!!!!
Fica aqui a homenagem ao "Time de Guerreiros" e a todos que participaram da saga. Ano que vem tem mais.
Ainda o dogma (a propósito de hereges)
Publicado: 2010-11-26 às 16:18
Tenho falado muito do Orkut, em particular. Apesar das inúmeras críticas que essa ferramenta vem recebendo, ainda é, na minha opinião, a melhor rede social. Tem o Facebook, e até concordo que seja superior em muitos aspectos. Mas nisso de fomentar discussões, de juntar pessoas com interesses comuns, de disseminar informação, eu acho o Orkut melhor. Meu perfil tem quase seis anos, e a quantidade de debates -sobre os mais diversos assuntos- e pessoas diferentes que conheci é inimaginável. Sempre surge alguma coisa nova, alguma coisa interessante. Como esta fala do padre Bede Griffiths, que recebi por scrap:
Além de ser cristão, eu preciso ser um hindu, um budista, jainista, zoroastrista, sikh, muçulmano e judeu. Só assim poderei conhecer a Verdade e encontrar o ponto de reconciliação de todas as religiões. . . E esta revolução tem que se processar na mente do homem ocidental.
Difícil expressar a alegria que eu sinto, ao tomar conhecimento de falas como essa. Porque a minha posição -eclética, dialética, aberta- é justamente assim: a de enxergar para além da religião.
A fala do padre católico tocado pelo Hinduísmo Griffiths se assemelha -através dos séculos- com a do sábio sufi do séc. XIII Muhammad Ibn Arabi, "al-Shaykh al-Akbar", "O Mestre Supremo", uma pérola de espiritualidade e tolerância:
O meu coração está aberto a todas as formas:
É uma pastagem para as gazelas,
E um claustro para os monges cristãos,
Um templo para os ídolos,
A Caaba do peregrino,
As Tábuas da Tora,
E o livro do Alcorão.
Professo a religião do amor,
E em qualquer direcção que avancem os seus camelos;
A religião do Amor
Será a minha religião e a minha fé.
É claro que o fundamentalista não pode aceitar isso. Assim como o islâmico "linha-dura" vai querer interpretar a seu modo a fala de Ibn Arabi, assassinando seu aspecto ecumênico, padre Griffiths é chamado de herege nesse mesmo Orkut. Sim, "herege"- Torquemada não diria melhor.
Herege!
Não é melhor a heresia ao dogma?
Os fundamentalistas acreditam que o espírito humano pode estar adstrito a um conjunto de cânones. Por serem limitados, binários, pensam que os homens todos também devem ser assim. Não percebem que a religião nada mais é que fenômeno de superestrutura, cultural -e portanto suscetível às condições materiais vigentes, influenciadas pela época e local- de modo que não se pode falar em religião "correta", "verdadeira", antes, todas são, todas podem ser "corretas" e "verdadeiras", se prestando ao seu papel de superação e melhora do ser humano.
(Assim como as demais produções do espírito, a literatura, a filosofia etc. , devem se prestar a esse papel. Reparem que, nesta ótica, os postulados religiosos -existência ou não de Deus, diabos, anjos e demônios, reencarnação e espíritos etc. - são indiferentes. Isso não quer dizer que precisem ser negados, ou aceitos. E sim que o importante é que, nesta vida, a religião sirva de fermento, e não de ópio).
Mas o fundamentalista pensa diferente. A religião verdadeira é a dele; aos demais, é garantido um lugar cativo no inferno. E como é irrazoável esse "lugar", o inferno! Qualquer pessoa sã sente arrepios de horror, ao se imaginar torturando alguém com ferro em brasa, por cinco minutos que sejam. Que dizer de uma tortura E-T-E-R-N-A, à base de fogo e lava? Sem descanso, sem pausa, sem perdão. Gritos não farão parar essa tortura eterna. Nada irá parar.
Cruel? Mas esse lugar existe. É o inferno dos fundamentalistas. E o anfitrião, ah!, é o Todo-poderoso em pessoa. O "Clemente", o "Misericordioso" da recitação islâmica; exatamente ele é o arquiteto desse horror.
Não é incongruente? Não há nada mais antirreligioso que a própria religião. Daí o homem de bom senso acaba por optar por deus nenhum a um Jeová bíblico possessivo e vingativo cuspindo bolas de fogo na cabeça dos pecadores. É por isso que eu (sem que seja propriamente um homem de bom senso) me sinto bem por não ter religião alguma.
O que não quer dizer que eu não busque a religiosidade.
Pois para mim há uma cisão clara: enquanto a religião é o território do dogma e das ameaças de inferno, a religiosidade é o campo do espírito. Pode-se chegar à religiosidade através da religião, mas não necessariamente; e de certo modo, podemos dizer que a religião tem justamente afastado, ao longo dos séculos, as pessoas da religiosidade.
A religiosidade é para além da religião. É aquele lugar mil vezes sagrado onde o padre Griffiths encontra Ibn Arabi, a eles se juntando Jalal ad-Din Rumi, que diz em seu "Masnavi":
Aquele a quem o santuário da verdadeira prece é revelado
Considera vergonhoso voltar à mera religião formal.
Charles Bukowski diz, no "Notes of a dirty old man", que Karl Marx é "merda seca demais". Está errado, redondamente errado. Karl Marx é alimento para o espírito. Pode ser "merda", e "seca" ainda por cima, mas apenas através dos óculos binários dos fundamentalistas. Parece-me claro que o marxismo fez, na luta da Humanidade por uma sociedade fraterna e libertária, muito mais que muitas doutrinas e dogmas religiosos. Assim como Marx, Osho também chama as religiões de ópio. Diz Osho:
Não são só as drogas e o álcool- a chamada religião também tem servido como um ópio. Ela dopa as pessoas. E é claro que todas as religiões são contra as drogas, afinal elas atuam no mesmo mercado; lutam contra a concorrência. Se as pessoas usam ópio, elas podem não ser religiosas. Já encontraram o ópio, para que se incomodar com a religião? E o ópio é mais barato, exige menos envolvimento.
Esse tipo de crítica parece cruel. Se mal entendida pode até mesmo dar azo a outra espécie de fundamentalismo, o da antirreligiosidade (aqui, religião e religiosidade como sinônimos: o ateu fundamentalista não faz a distinção), que é o mesmo pensamento binário, mas do lado oposto. A crítica da religião deve ser dialética, e jamais binária ou irracional. O "ópio do povo" de Marx deve ser interpretado em seu contexto, conforme aparece na "Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel".
É que insisto: o problema não é o espírito religioso, e sim quando é visto pela lente binária do fundamentalismo. Está em 2 Coríntios 3: 6: a letra mata, o espírito vivifica. Por "letra" entendo justamente a lei, o manual, a autoridade, o "é porque é e ponto final". O dogma, enfim.
O dogma é o assassino do espírito.
Além de ser cristão, eu preciso ser um hindu, um budista, jainista, zoroastrista, sikh, muçulmano e judeu. Só assim poderei conhecer a Verdade e encontrar o ponto de reconciliação de todas as religiões. . . E esta revolução tem que se processar na mente do homem ocidental.
Difícil expressar a alegria que eu sinto, ao tomar conhecimento de falas como essa. Porque a minha posição -eclética, dialética, aberta- é justamente assim: a de enxergar para além da religião.
A fala do padre católico tocado pelo Hinduísmo Griffiths se assemelha -através dos séculos- com a do sábio sufi do séc. XIII Muhammad Ibn Arabi, "al-Shaykh al-Akbar", "O Mestre Supremo", uma pérola de espiritualidade e tolerância:
O meu coração está aberto a todas as formas:
É uma pastagem para as gazelas,
E um claustro para os monges cristãos,
Um templo para os ídolos,
A Caaba do peregrino,
As Tábuas da Tora,
E o livro do Alcorão.
Professo a religião do amor,
E em qualquer direcção que avancem os seus camelos;
A religião do Amor
Será a minha religião e a minha fé.
É claro que o fundamentalista não pode aceitar isso. Assim como o islâmico "linha-dura" vai querer interpretar a seu modo a fala de Ibn Arabi, assassinando seu aspecto ecumênico, padre Griffiths é chamado de herege nesse mesmo Orkut. Sim, "herege"- Torquemada não diria melhor.
Herege!
Não é melhor a heresia ao dogma?
Os fundamentalistas acreditam que o espírito humano pode estar adstrito a um conjunto de cânones. Por serem limitados, binários, pensam que os homens todos também devem ser assim. Não percebem que a religião nada mais é que fenômeno de superestrutura, cultural -e portanto suscetível às condições materiais vigentes, influenciadas pela época e local- de modo que não se pode falar em religião "correta", "verdadeira", antes, todas são, todas podem ser "corretas" e "verdadeiras", se prestando ao seu papel de superação e melhora do ser humano.
(Assim como as demais produções do espírito, a literatura, a filosofia etc. , devem se prestar a esse papel. Reparem que, nesta ótica, os postulados religiosos -existência ou não de Deus, diabos, anjos e demônios, reencarnação e espíritos etc. - são indiferentes. Isso não quer dizer que precisem ser negados, ou aceitos. E sim que o importante é que, nesta vida, a religião sirva de fermento, e não de ópio).
Mas o fundamentalista pensa diferente. A religião verdadeira é a dele; aos demais, é garantido um lugar cativo no inferno. E como é irrazoável esse "lugar", o inferno! Qualquer pessoa sã sente arrepios de horror, ao se imaginar torturando alguém com ferro em brasa, por cinco minutos que sejam. Que dizer de uma tortura E-T-E-R-N-A, à base de fogo e lava? Sem descanso, sem pausa, sem perdão. Gritos não farão parar essa tortura eterna. Nada irá parar.
Cruel? Mas esse lugar existe. É o inferno dos fundamentalistas. E o anfitrião, ah!, é o Todo-poderoso em pessoa. O "Clemente", o "Misericordioso" da recitação islâmica; exatamente ele é o arquiteto desse horror.
Não é incongruente? Não há nada mais antirreligioso que a própria religião. Daí o homem de bom senso acaba por optar por deus nenhum a um Jeová bíblico possessivo e vingativo cuspindo bolas de fogo na cabeça dos pecadores. É por isso que eu (sem que seja propriamente um homem de bom senso) me sinto bem por não ter religião alguma.
O que não quer dizer que eu não busque a religiosidade.
Pois para mim há uma cisão clara: enquanto a religião é o território do dogma e das ameaças de inferno, a religiosidade é o campo do espírito. Pode-se chegar à religiosidade através da religião, mas não necessariamente; e de certo modo, podemos dizer que a religião tem justamente afastado, ao longo dos séculos, as pessoas da religiosidade.
A religiosidade é para além da religião. É aquele lugar mil vezes sagrado onde o padre Griffiths encontra Ibn Arabi, a eles se juntando Jalal ad-Din Rumi, que diz em seu "Masnavi":
Aquele a quem o santuário da verdadeira prece é revelado
Considera vergonhoso voltar à mera religião formal.
Charles Bukowski diz, no "Notes of a dirty old man", que Karl Marx é "merda seca demais". Está errado, redondamente errado. Karl Marx é alimento para o espírito. Pode ser "merda", e "seca" ainda por cima, mas apenas através dos óculos binários dos fundamentalistas. Parece-me claro que o marxismo fez, na luta da Humanidade por uma sociedade fraterna e libertária, muito mais que muitas doutrinas e dogmas religiosos. Assim como Marx, Osho também chama as religiões de ópio. Diz Osho:
Não são só as drogas e o álcool- a chamada religião também tem servido como um ópio. Ela dopa as pessoas. E é claro que todas as religiões são contra as drogas, afinal elas atuam no mesmo mercado; lutam contra a concorrência. Se as pessoas usam ópio, elas podem não ser religiosas. Já encontraram o ópio, para que se incomodar com a religião? E o ópio é mais barato, exige menos envolvimento.
Esse tipo de crítica parece cruel. Se mal entendida pode até mesmo dar azo a outra espécie de fundamentalismo, o da antirreligiosidade (aqui, religião e religiosidade como sinônimos: o ateu fundamentalista não faz a distinção), que é o mesmo pensamento binário, mas do lado oposto. A crítica da religião deve ser dialética, e jamais binária ou irracional. O "ópio do povo" de Marx deve ser interpretado em seu contexto, conforme aparece na "Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel".
É que insisto: o problema não é o espírito religioso, e sim quando é visto pela lente binária do fundamentalismo. Está em 2 Coríntios 3: 6: a letra mata, o espírito vivifica. Por "letra" entendo justamente a lei, o manual, a autoridade, o "é porque é e ponto final". O dogma, enfim.
O dogma é o assassino do espírito.
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