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Pedro Luso

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Temas sobre: Filosofia, Psicologia, Música Clássica, História, Sociologia e Economia Política.

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[Entrevista] MARGUERITE YOURCENAR ? A forma

Publicado: 2013-05-16 às 21:29
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]





MARGUERITE YOURCENAR recebeu uma educação especial; estudou línguas clássicas e das civilizações mediterrâneas. Estudou latim e grego pela atração que sentia pela literatura do mundo clássico. A sua obra de ficção contém muito dessa literatura, para as quais aplicou uma técnica que lhe era própria.




Os romances de Yourcenar foram produzidos justamente tendo por base essa cultura clássica, que acumulara quase sempre voltada à História. Memória de Adriano (1951), romance no qual imaginara esse imperador, no início do segundo século da era cristã, é um bom exemplo do fascínio que exercia sobre ela a produção artística e literária do mundo clássico.



A obra de Marguerite Yourcenar é extensa, ao todo 25 livros, mais da metade traduzida para o português, a partir de 1980. Os temas de seus livros passam pela história, pela arte, pela religião e pelo erotismo.




As duas dimensões praticamente inseparáveis dos temas místicos que aborda, e que procura fazer sobressair-se na sua obra, são o profano e o sagrado. A título de exemplo, mencionamos a A obra em negro, Contos orientais, Fogos, Alexis, O tempo, esse grande escultor, Recordações de família e Arquivos do norte.




Segue a resposta nº 1, de Marguerite Yourcenar, a Patrick de Rosbo sobre a forma, feita na entrevista que lhe concedeu na rádio Frace Culture em janeiro de 1971 (in Entrevistas com Marguerite Yourcenar/Patrick Rosbo, tradução de Raquel Ramalhete ? Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p. 15-16):








[ESPAÇO DA ENTREVISTA]


A FORMA( Marguerite Yourcenar )





ROSBO ? pergunta nº 1? Como se coloca para a senhora o problema da forma na criação de sua obra?




MARGUERITE YOURCENAR ? resposta nº1 ? O problema da forma desempenha um papel particular no pensamento crítico da França e, na minha opinião, damos-lhe muitas vezes um lugar importante demais. O respeito de nossos compatriotas pela literatura é tal que, quando se diz que um livro foi bem escrito, tudo foi dito. Na verdade, para mim, não há antítese entre fundo e forma.




A forma de um ser é o aspecto visível, tangível de sua natureza. Este cão fraldeiro que está a meu lado, nós o reconhecemos como fraldeiro por sua forma. É por sua forma que ele é o que é e não um são-bernardo. Quando olhamos num museu uma velha de Rembrandt ou, ao contrário, a Vitória de Samotrácia, é só através de uma certa forma que conhecemos o pensamento que o pintor ou o escultor quiseram nos transmitir: por um lado o patético da velhice, a dignidade da velhice, por outro o impulso heroico, a tempestade feita mulher, uma espécie de grande anjo feito de velocidade e vento. Nos dois casos, a forma não é outra coisa senão o fundo tornado visível e a essência tornada palpável: aqui um emaranhado de rugas, lá dobras de pano, escavadas e infladas pelo vento do mar. Se não houvesse essa forma pintada ou esculpida não haveria nem pensamento, , nem obra, nem obra-prima. E o mesmo acontece com tudo o que nos toca na vida. É pela forma que nos reconhecemos, como é pela ação que nos mostramos tal como somos. Proponho então que o problema da forma enquanto oposto, superimposto ao pensamento, seja de certo modo deixado de lado, porque é um falso contraste e um falso problema.








* * *

[Filosofia] GIORGIO DEL VECCHIO - O Seu Pensamento

Publicado: 2013-05-07 às 15:55
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]





Até o início de 1967, que foi o ano em que iniciei meus estudos jurídicos na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre (RS), o meu contato com a Filosofia deu-se com alguns de seus nomes mais representativos, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles, Montaigne, Maquiavel, Voltaire, Nietzche, Bertrand Russel, Ortega Y Casset, Jean-Paul Sartre, Camus, e outros; até então não havia tido qualquer aproximação com a Filosofia do Direito, que, de resto, não tinha o menor significado para mim, até que, por força curricular, fui instado a estudá-la; a obra, que viria a me lançar nessa experiência, foi Filosofia do Direito, do jurista Miguel Reale. A partir daí, procurei familiarizar-me com outros filósofos do direito, o que efetivamente ocorreu.




Dentre os filósofos do Direito há que mencionar Savigny, Jhering e Hans Kelsen, na Europa; no Brasil é de ser destacado Miguel Reale e Tércio Sampaio Ferraz jr. ; ao tratar da Filosofia do Direito na América Latina em sua obra, Giorgio Del Vecchio destaca como importantes filósofos do Direito, no Brasil: Clóvis Bevilaqua, Sílvio Romero, Pedro Lessa, Pontes de Miranda; E. de Queiroz, Miguel Reale, Paulo Dourado de Gusmão, J. Arruda, R. de Farias Brito, J. Mendes, A. Diniz, J. Serrano, Armando Câmara, entre outros.




No ano de 1972, Lições de Filosofia do Direito, de Giorgio Del Vecchio, foi publicada em Coimbra, Portugal, pela editora Armênio Amado, Editor, Suc. , com a tradução de António José Brandão. Da obra de Del Vecchio, professor e jurista, nascido em Bologna, em 1878, e morto em Gênova, em 1970, escolhi trechos do primeiro tema da obra: História da Filosofia do Direito, Considerações Preliminares, como segue:




?De cada ciência é vantajoso conhecer a história. Mas a importância de tal conhecimento faz-se sentir de modo particular a respeito das disciplinas filosóficas; em estas, o presente, sem o passado, carece de sentido; e o passado revive no presente. Os problemas filosóficos que hoje discutimos são fundamentalmente os mesmos que aos filósofos antigos se mostraram, ainda que de modo germinal ou embrionário. O exame dos sistemas filosóficos, por outro lado, proporciona-nos uma série de experiências lógicas. Ao efetuá-las, aprendemos a ver a que conclusões se chega quando se parte de certas premissas e, assim, a tirar partido da aprendizagem, com o intuito de nos avizinharmos de sistema mais perfeito, que seja produto de mais intensa maturidade, capaz de evitar os erros já entretanto cometidos.




A História da Filosofia é, por conseguinte, meio de estudo e de investigação, e, como tal, poderosa ajuda para o nosso trabalho: oferece-nos repositório de observações, de raciocínios, de distinções, que a um homem só, no decurso da vida, seria impossível ocorrer. Acontece-nos o mesmo que a qualquer artífice atual que, agora, seria incapaz de ser o inventor de todos os instrumentos de sua arte.




No caso particular da Filosofia do Direito, a história dela mostra sobretudo que em todas as épocas se meditou sobre os problemas do Direito e da Justiça. Logo: o fato denuncia que tal problema não é uma invenção artificiosa, mas corresponde à necessidade natural e constante do espírito humano.




A Filosofia do Direito, porém, não se nos depara, nas suas origens, como disciplina autônoma, mas mesclada com a Teologia, a Moral e a Política; só pouco a pouco se operou a sua autonomia. Nos primeiros tempos, a confusão foi completa e, no Oriente, temos o seu melhor exemplo, pois, aí, os livros sagrados apresentam-se simultaneamente como tratados de Cosmogonia, de Moral, e contém elementos de outras ciências, assim teóricas como práticas. Nestes escritos predomina o espírito dogmático. Neles é o direito concebido à maneira de prescrição divina, superior ao poder humano, e, por isso, não como objeto de discussão e ciências, mas tão só de fé.




As leis positivas são também consideradas indiscutíveis; e não se julga suscetível de fiscalização e limite o poder existente, expressão da divindade. Em essa fase, própria dos povos ocidentais, ainda o espírito crítico ainda não se tinha manifestado. Contudo, injusto seria olvidar que muitos destes povos, sobretudo os hebreus, os chineses e os indianos deram notável impulso aos estudos filosóficos, sobretudo no respeitante à Moral?.













REFERÊNCIA:

VECCHIO, Giorgio Del. Lições de Filosofia do Direito. Tradução de Antonio José Brandão. Revisão e prefácio de L. Cabral de Moncada. Atualizada por Anselmo de Castro. Coimbra: Armênio Amado, Editor, Suc. , 1972.





* * *

[Ensaio] PEDRO LUSO / Os Nossos Amigos

Publicado: 2013-04-28 às 17:00
[ESPAÇO DO ENSAIO]


OS NOSSOS AMIGOS[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]





Desde minha infância ouço pessoas dizerem que mais vale um amigo que mil parentes. Por outro lado, de uma ou de outra pessoa, tenho ouvido a afirmação da existência de amizade entre pais e filhos; pouco ouvi, no entanto, a afirmação de irmãos dizendo-se amigos. Por esse enunciado, fica claro que o tema será tratado sob três ângulos, quais sejam, amizade entre: a) pessoas sem vínculo de parentesco; b) pais e filhos; c) irmãos.




Os nossos primeiros amigos (item a) são formados na infância, e, de muitos deles, só nos separamos com a distância ou com a morte. Nessa fase da vida formamos amigos para com eles compartilharmos as brincadeiras próprias da idade, as disputas saudáveis nos esportes etc. Também na adolescência sentimos a necessidade de amigos para contarmos nossas aventuras amorosas, para termos dos amigos a confirmação ou não de estarmos agindo da maneira certa, como, por exemplo, nas tentativas de aproximação de quem pretendemos namorar, ou apenas ?ficar?, como se diz modernamente. Também o adolescente, homem ou mulher, necessita de amigos para falar de suas aspirações e projetos; de seus amores e de suas decepções amorosas. E, daí por diante. Passadas essas duas fases, agora pessoas adultas, com família constituída ou não, com profissão para dedicar-se, sobrecarregada de compromissos, os amigos parecem ser ainda imprescindíveis, tanto que ali estão eles, os amigos formados na idade adulta, ou aqueles vindos da infância ou da adolescência.




O escritor Carlos Fuentes diz em seu livro Este é meu credo, no ensaio que faz sobre amizade: ?Aquilo que não temos, encontramos no amigo. Acredito nesse benefício e o cultivo desde a infância. Nisso, não sou diferente da maioria dos seres humanos. A amizade é o grande elo inicial entre o lar e o mundo. O lar feliz ou infeliz é a aula de nossa sabedoria original, mas a amizade é a sua prova. O que recebemos da família, confirmamos na amizade. As variações, discrepâncias ou semelhanças entre a família e os amigos determinam as rotas contraditórias de nossa vida. Embora amemos nosso lar, todos passamos pelo momento inquieto ou instável do abandono (embora o amemos, embora nele permaneçamos). O abandono do lar só tem a recompensa da amizade. Mais ainda: sem a amizade externa, a morada interna desmoronaria. A amizade não disputa com a família os inícios da vida: ela os confirma, garante e prolonga. A amizade abre caminho aos sentimentos que só podem crescer fora do lar. Encerrados na casa da família, murchariam como flores sem água. Aberta as portas da casa, descobrimos formas de amor que irmanam o lar e o mundo. Essas formas se chamam amizades?.




Está claro que Carlos Fuentes referiu-se à amizade entre pessoas sem vínculo de parentesco. Agora, passemos, pois, ao item b, supra, amizade entre pais e filhos. Entendo que o vínculo que existe em ambos não pode ser chamado de amizade, embora haja aqueles que se vangloriam em dizer que a relação que existe entre ele e seus filhos é uma relação de amizade. Outros sentimentos ligam fortemente os pais a seus filhos ? não o sentimento da amizade. Mas se tratam de sentimentos fortes e importantes, embora os sentimentos dos filhos não sejam tão fortes quanto os dos seus pais. E a explicação está no desejo que o filho tem em criar o seu próprio mundo, partindo do principio de que sua realização se dará fora do lar no qual sempre viveu, como disse, com sabedoria, esse nome importante da literatura mexicana, Carlos Fuentes, no texto supra.




A respeito do que afirmamos acima, sobre a impossibilidade de existir amizade entre pais e filhos, como ocorre com pessoas sem esse vínculo de sangue, trazemos os ensinamentos de Michel de Montaigne, o filósofo da predileção de Jean-Paul Sartre, que, num dos capítulos dos seus Ensaios, fala sobre o tema, com o título: Da amizade. Diz, Montaigne: ?Nas relações entre pais e filhos é mais o respeito que domina. A amizade nutre-se de comunicação, a qual não pode estabelecer-se nesse domínio em virtude da grande diferença que entre eles existe, de todos os pontos de vista; a esse intercâmbio de ideias e emoções poderia por vezes chocar os deveres recíprocos que a natureza lhes impôs, pois se todos os pensamentos íntimos dos pais se comunicassem aos filhos, ocorreria entre eles familiaridades inconvenientes. Mais ainda: não podem os filhos dar conselhos ou formular censuras a seus pais, o que é, entretanto, uma das primeiras obrigações da amizade?.




Resta-nos, pois, o item c, a amizade entre irmãos. Por motivos semelhantes aos mencionados acima, quando falamos sobre a impossibilidade de existir amizade entre pais e filhos, dizemos agora que a situação é semelhante entre irmãos, com algumas variantes ? não pelo respeito que domina nesse caso a relação entre pai e filho, ou por sentimentos nobres; ao contrário, sentimentos vis, muitas vezes, como é o caso da inveja, que, sendo desmedida, logo se têm como coadjuvante o ódio e, como consequência, a traição, com as suas formas mais sórdidas; e, como o ódio, do qual essas pessoas ficam impregnadas, logo se vê a prática de despropósitos contra o irmão; atos que demonstram não só a discórdia, mas também um sentimento de destruição do outro, embora nem sempre consciente; sente-se isso quando se vê irmãos invejosos colocarem barreiras no relacionamento entre o irmão e seus pais, quando querem alijá-lo da família, cuja explicação seria óbvia e fácil para a psicologia. Freud não teria dificuldades em explicar tal fenômeno.




Trazemos novamente o ensinamento de Michel de Montaigne a respeito da relação entre irmãos: ?É, em verdade, um belo nome e digno da maior afeição o nome de irmão; e por isso La Boétie e eu o empregamos quando nos tornamos amigos; mas na realidade, a comunidade de interesses, a partilha de bens, a pobreza de um como consequência da riqueza de outro, destemperam consideravelmente a união formal. Em devendo os irmãos, para vencer neste mundo, seguir o mesmo caminho, andar com passo igual, inevitável se torna que se choquem amiúde. Mais ainda: é a correspondência dos gostos que engendra essas verdadeiras e perfeitas amizades e não há razão para que ela se verifique entre pai e filho, ou entre irmãos, os quais podem ter gostos totalmente diferentes?.




Voltemos ao tema, qual seja, a amizade - tema que não inclui pais, filhos e tampouco irmãos - com este trecho de Carlos Fuentes, in Este é meu credo, como segue: ?Que sempre falta descobrir mais do que já existe. Que a amizade se colhe porque se cultiva. Que ninguém faz amigos sem fazer inimigos, mas que inimigo algum jamais alcançará a altura de um amigo. Que a amizade é uma forma de discrição: não admite a maledicência que maldiz àquela que a diz, nem a fofoca que transforma tudo em lixo. Amizade é confiança. (É mais vergonhoso desconfiar dos amigos do que enganá-los, escreveu La Rochefoucauld. ) Que a amizade, para ser próxima, mostra-nos o caminho do respeito e da distância, embora a amizade permita amar e detestar as mesmas coisas. ?




Para encerar, vejamos a lição que Carlos Fuentes aprendeu com seu dileto amigo, um dos gênios do cinema, Luis Buñuel: ?Digo naturalidade passiva e me ocorre que, sendo o diálogo uma das celebrações da amizade, o silêncio também pode sê-lo. E um ensinamento de minha amizade com Luis Buñuel. A princípio, pensei que suas lacunas durante uma conversa geralmente muito animada fossem falha minha, e uma censura da parte dele. Aprendi que saber estar juntos sem dizer nada era uma forma superior de amizade. Era respeito. Era reverência. Era reflexão, oposta ao simples tagarelar. Não somos, instantaneamente, conversadores. Seremos, instantaneamente, filósofos. . . Não eram estóicos Sêneca e Manolete, ambos de Córdoba??













REFERÊNCIAS:

FUENTES, Carlos. Este é meu credo. Trad. de Ebréia de Castro Alves. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

MONTAIGNE, Michel. Ensaios. Trad. de Sérgio Milliet. Porto Alegre: Editora Globo, 1961











* * *

[Conto] JANE TUTIKIAN ? Por perdas e danos

Publicado: 2013-04-24 às 18:24
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]





JANE TUTIKIAN é porto-alegrense, nascida em 1952. É Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora na mesma universidade, autora de mais de uma dezena de livros dirigidos ao leitor adulto e ao infanto-juvenil. Foi patrona da 57ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre de 2011.




A escritora estreou em 1981 com os contos de Batalha Naval. Em 1984 Jane Tutikian ganhou o premio Jabuti pelo livro juvenilA cor do azul. Seus livros mais recentes são, dentre outros, o livro de contos adultos Entre mulheres: contos do amor aprendiz (2005), e os infanto-juvenis Olhos azuis, Coração vermelho (2005); Fica ficando (2007) e Por que não agora?, que foi lançado na Feira do Livro de 2010.



Segue o conto Por perdas e danos, de Jane Tutikian (In Rodízio de Contos. Organizado por Arnaldo Campos, Charles Kiefer e Laury Maciel. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985, p. 66-68):






[ESPAÇO DO CONTO]
Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim.
Fernando Pessoa


POR PERDAS E DANOS
(Jane Tutikian)

É que, de repente, no meio da casa, no meio da noite, no meio da vida, me assola uma saudade enorme, dessas em que a gente nem sabe que rumo tomar e se deixa ir por um frio qualquer, de uma fresta qualquer, coração e vísceras expostos, desabrigada. Tantos foram os porquês?, que percebo ter perdido o meu agora. E agora?


Luto para que o silêncio não me possua, mas o movimento único é o de me saber viva.


Não quero que me peças, nunca para te compreender, nem que me olhes assim:. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ?, pedido que te ouça e aceite, simplesmente. É que, simplesmente, eu teria de definir o indefinível, caminhar o estático, sorrir com a tua boca grande de dentes pequenos e olhos rasgados, sorrir a minha própria perda.



Ora, eu sei que o amor é uma teimosia invencível do coração. É desnudar para a vida e levantar todas as cortinas e abrir todas as portas e respirar todas as luzes no gozo pleno do exercício estando e. Mas, é, também, eu sei, sair ferido pela palavra mais inocente e mutilado do gesto mais brusco. E agora?


Agora, o que será isso, afinal, o que será esse É QUE a que me submeto violentada e passiva e que te dá a mim uma forma tão mais próxima e completa justamente quando mais me perco para o nunca mais? Talvez te pareça engraçado, mas às vezes penso que é meu destino o de carregar pela vida a fora o nunca mais das pessoas que amei. Eu sei, a minha nudez só a mim pertence, a tua nudez só a ti pertence, é a natureza de ser, não é? Chorei quando não consegui aguentar, comi como uma louca para conseguir te suportar, fumei até meu orgasmo estourar em crises e crises de asma só porque na minha cabeça bate uma coração de mulher.


Odeio esta lucidez que tanto admiro em ti. Odeio o que ela te destruiu, oque ela te fez maior quando te sentias menor e te transformava, no gesto estúpido, num animal fragilizado e débil.


Ao diabo os outros! A injustiça! A crise! O anticoncepcional! A fome! Ao diabo os corpos que não se querem donos, as almas que só se querem chão ? ao diabo, queria ter dito ? se amo tua sensibilidade, se me banho em catarse no som da tua voz, que permanece intacta nos meus ouvidos em dias escuros, de escuridões quase intransponíveis, e em noites claras do mais puro prazer de sentir. . . Ao diabo o diabo porque te odiei com todo o carinho de que fui capaz e te amei raivando, filha irrecuperável.


Ora, amadureci, eu sei, me cresci um tanto em tantas das tuas palavras porque, despreparada e surpresa, me chamaram a pensar e a pensar e a pensar e. Só que as pessoas maduras envolvem até o suportável e eu quero também o insuportável porque a perfeição tem de ser o inteiro. . . Só que, alucinada de tanto realismo, abri minha porta para quando tu quisesses, se quisesses chegar.


Tu viste. Viste, sim. Mas vistes com deboches, numa conversa que me soava tão estranha de ?eu sou mais eu?, ?percebe minha senhora??, ?finja que sou malandro?, uma alegria de cena: eu sei: quando eu estiver bem no alto, no perigo, recolhe a rede: ela é a grande mentira. . . Mas também viestes com manhas e lamúrias. Com choros fáceis e difíceis que só a ti diziam respeito. Mas, sobretudo, viestes com verdades, assim, na cara, sem eufemismos, olho no olho, letra na letra, doando-se, o irrefutável. E quem te pediu verdades?


De verdades, estou farta. Sofro-as diariamente nos jornais, nas pessoas, nos bichos, nas plantas, nos pedaços de carne que me coube. Ai! Que sarcástica a alegria da consciência! Que dolorida a emoção da consciência!


Tudo o que eu queria agora, no meio da vida, era a presença, aquela que a Nana canta, tu lembras? ?é o fim da procura, infinita loucura de sempre acreditar que estas em mim?, a Doce Presença desafiante e fiel num corpo rico de seus próprios ritmos: tua força vital, e tu ficas aí, agora:


inerte


sem fazer absolutamente nada


as mão cruzadas sobre o peito


repetindo interminavelmente a mesma cena a mesma cena a mesma cena a mesma cena a que, interminavelmente, eu vou ter de assistir a mesma c


Não perdoo teu tempo!


Inútil colocar um tempo dentro de outro! Cada um pertence a si próprio. Não percebeste que não se pode jogar, para o passado, o presente e, para o futuro, o passado, achando que ele vai resolver e mostrar quê?


Não percebeste que ele não resolve nada? Cada um pertence a si próprio. Não percebeste que não se pode jogar, para o passado, o presente e, para o futuro, o passado, achando que ele vai resolver e mostrar quê?


Não percebeste que ele não resolve nada? Que lembrar é tornar sonho o que foi verdade e o que hoje é QUE É e que o tempo é a vida que a gente cria do modo que pode e que teu tempo és tu e que o meu tempo sou eu e que o depois também será, mas jamais será, o passado?


Se descobrimos, o que nos coloca entre os poucos, o sentir, se descobrimos a vida de sensações e emoções, por que não sentiste que fora disso que tu és permitem te fazer e que eu sou permitem me fazer , tudo é morte em nós? Poxa! Em cacos não há sobrevida, disso eu sei que não tenho feito outra coisa a não ser juntar os meus, mas na fuga também não! É que tudo vale porque existe o nada. . .


Ai que, só, no meio da vida, as escolhas estão cada vez mais escassas, percorro-as com o risco de mim.


Ai que são opções fechadas. Tu


Ai que ai!


Começo a. Sim.


Sim eu te compreendo. ? Mas que inútil compreensão, essa que me mostra a fundura do meu abismo, a desvalia.


Ai que preciso agarrar urgente e com força às cordas que me teci e abrir, ainda uma vez, minha porta à noite e negar, aceitando, ainda uma vez, tua morte, minha morte, todas as mortes e, quem sabe?, entre perdas e danos, ressurgir da vida. A porta.





* * *

A NARRATIVA DE TCHEKHOV

Publicado: 2013-04-18 às 16:13
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]




Escrever sobre Anton Pavlovitch Tchekhov, o mais importante escritor da narrativa ficcional do gênero conto de todos os tempos, poderia parecer pretensão demasiada caso o ato de escrever sobre ele não se constituísse em homenagem ao gênio da história curta, como de fato se constitui esse preito.




Sendo assim, sinto-me à vontade para falar um pouco da sua vida e obra, começando por L. N. Tolstoi, o grande literato russo autor do épico Guerra e Paz, dos extraordinários romances Ana Karenina e Ressurreição, e do excepcional conto A Morte de Ivan Ilitch, que afirmou ter sido superado por Tchekhov como escritor na técnica da ficção, e por ter ele criado novas formas de escrever.




A vida de Tchekhov pode ser contada com maior ênfase a partir dos sacrifícios pelos quais passou quando criança, quando trabalhava por horas seguidas no armazém de seu pai, dormindo pouco e vendo sua saúde debilitar-se. Do seu pai lembrava-se das noites em que obrigava aos seus filhos a participar de cânticos e ofícios religiosos e da escravidão no armazém.




Até a idade de dezenove anos Anton Tchekhov viveu na cidade de Taganrog, pacata localidade no sul da Rússia, onde nasceu no ano de 1860. Após ter concluído o Liceu mudou-se para Moscou, três anos depois que sua família havia se mudado para a capital russa; aí passou a morar com a família numa casa velha desprovida de qualquer conforto, sem um único quarto, e localizada num dos bairros mais pobres da cidade.




Após ter obtido uma bolsa de estudos, Tchekhov matriculou-se na Faculdade de Medicina, na qual se formou no ano de 1884, época em que passou a sentir os primeiros sintomas de tuberculose pulmonar, que o levaria à morte anos mais tarde. Além dos estudos e do trabalho em hospital continuou com sua atividade literária escrevendo histórias de humor, sob pseudônimo, para diversas revistas humorísticas.




Tchekhov esforçava-se para ajudar na manutenção de sua família, composta que era de quatro irmãos e uma irmã, além dos seus genitores, trabalhando sempre às pressas. No período de 1880 a 1884 escreveu cerca de trezentos textos, entre contos e novelas, dando pouca atenção à qualidade dessas obras, já que a sua preocupação estava voltada para o sustento da família. No entanto, não demoraria a deixar essas revistas, que considerava atividade de ocasião, e partiria para a grande literatura.




No ano de l886 Tchekhov recebeu uma carta de Dmitri Grigorovich, um dos mais importantes escritores da Rússia, que o influenciou a ponto de conscientizá-lo de que ele era um verdadeiro escritor, fazendo-o assumir essa condição, embora nessa época já estivesse assinando seus textos com o seu verdadeiro nome, que eram publicados na Gazeta de Petersburgo e na revista Novos Tempos, dois importantes veículos de comunicação.




Em sua carta, Grigorovith dizia a Tchekhov: ?Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas a mestria de suas descrições (. . . ) deram-me a convicção de está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a essas esperanças. O que lhe falta é estima por esse talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever demais. Deixe de produzir trabalhos com data marcada! Desconheço suas condições materiais, caso sejam minguadas, de preferência passe fome, como nós já o fizemos. Poupe suas impressões para um trabalho bem apurado, que não se pode escrever de chofre, mas, sim, nas horas felizes de calma e inspiração?.




Além da influência de Grigorovith, também foi bastante influenciado por Tolstoi, mas não levou muito tempo para que Tchekhov passasse a trilhar o seu próprio caminho, como pode se ver pelos seus contos A Estepe, O Colapso Nervoso, Uma Estória Aborrecida, que logo passaram a ser apreciados pelos críticos e leitores da época, o que ainda ocorre nos dias atuais.




A matéria prima para as suas criações, quando Tchekhov já tinha plena consciência de sua importância para a arte literária, originou-se, em grande parte, do convívio em hospitais de Moscou e da sua periferia, com pessoas que viviam em estado de miserabilidade, trespassadas de dores às quais tentava minimizar, e desprovidas de quaisquer esperanças. Como médico nada recebia desses pacientes, mas, em contrapartida, teve seu caráter fortalecido, além de ter tomado consciência da insensatez e da indiferença dos governantes no tocante à miséria humana, tema que se amalgamou à sua produção literária.




Tchekhov também se dedicou às vítimas da epidemia de cólera que assolou parte da Rússia no ano de 1892, epidemia que retornou em 1893. Um novo empreendimento o aguardava, a luta para denunciar os maus tratos sofridos pelos condenados a trabalhos forçados no maior presídio da Rússia, localizado na Ilha de Sacalina, onde colheu provas fotográficas e entrevistou dezenas de prisioneiros que sofriam de maltrato físico e psíquico. A partir de sua denúncia, que compungiu a sociedade russa, o Governo passou a exercer forte fiscalização nesse presídio da Sibéria.




O escritor continuou transportando para os seus contos e novelas toda a intensidade do sofrimento das pessoas marginalizadas com as quais convivia, em especial nas suas primeiras obras, com a experiência que teve com a peste e o empreendimento realizado na Sibéria. Um dos exemplos é Enfermaria nº 6, conto extenso escrito em 1892; nele se sente com toda a intensidade, de forma pungente, o requinte da crueldade que subjugava e dilacerava o homem pela dor da carne e da alma.




Outro exemplo, o conto O Assassinato, escrito em 1895, no qual transparece a dolorosa experiência vivida na Sibéria. Outros contos importantes, Os camponeses e O vale foram resultados das experiências que teve com o campesinato, narrando com força e realismo toda a miséria e dificuldades pelas quais passavam os camponeses russos.




A obra de Tchekhov contém histórias de pessoas comuns da sociedade russa, pessoas simples que viviam em Moscou, nas pequenas cidades e vilas camponesas; cada uma dessas pessoas tinha, no dia-a-dia de suas vidas, que vencer uma luta feroz contra as privações materiais que ameaçavam sua sobrevivência nas cidades, nas vilas e nos campos, onde a miséria os rondava; essa realidade foi, em grande parte, a matéria-prima de suas histórias.




Era tal o talento e o gosto de Tchekhov pelo conto e novela que nunca sentiu necessidade e inspiração para produzir obra mais alentada, como é o caso do romance; talvez Tchekhov tenha sido o único escritor russo de escol que nunca escreveu um único romance; não o fez simplesmente por ter seu interesse literário voltado para a narrativa curta. .




Contos, ao contrário, Tchekhov escreveu centenas deles, e com rara facilidade, sobre quaisquer temas, passando dos contos mais extensos que poderiam ser tomados por novelas, para os contos curtos e sintéticos, todos, no entanto, impregnados do seu humanismo e do seu profundo sentimento de solidariedade para com os desafortunados. Sobre a aristocracia, descreveu-a com o seu refinado estilo, como indolente e ridícula por suas frivolidades.




Além dos contos de Tcheckhov que mencionei acima, dou realce ao livro A Dama do Cachorrinho & Outros Contos, publicado pela Editora 34, com tradução de Boris Schnaiderman. Nesse livro encontram-se publicados, além de uma de suas obras primas, A Dama do Cachorrinho, mais trinta e cinco contos, dentre eles, Nos banhos, Casa-se a cozinheira, Crime premeditado, Aflição, Um dia no campo, Gente supérflua, Ventoinha, Um caso clínico, Homem num estojo, Queridinha, etc.




Techekhov morreu em 1904, aos 44 anos de idade, em Badenweiler, Alemanha, distante de sua Rússia. Passou os últimos momentos de vida com sua esposa, a atriz Olga Knipper, sabendo que personagens e histórias por ele escritas não morreriam, e que com eles continuaria a viver. (Ver Anton Tchekhov/Enfermaria nº 6. )









REFERÊNCIAS:
MASON, Jayme. Mestres da literatura russa: aspectos de suas vidas e obras. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
TCHEKHOV, Anton. Nota bibliográfica in A dama do cachorrinho. Trad. de Boris Schnaiderman. Ed. 34, 2001.
TCHEKHOV, Anton. In: As três irmãs e contos. Trad. de Boris Schnaiderman. São Paulo: Abril Cultural, 1979.



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