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Litos

Diário de um sociólogo

Sociologia no dia-a-dia

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Últimos posts neste blog:

Carta para o presidente Guebuza

Publicado: 2010-09-02 às 10:27
Senhor Presidente Armando Guebuza
Não é a primeira vez que lhe escrevo.
Provavelmente não lerá o que, de forma breve, se segue.
Mas permiti-me o arrojo de lhe escrever de novo, talvez alguém lhe dê a conhecer o conteúdo desta carta.
Presidente, o Senhor ama dizer que o nosso povo é maravilhoso. E é.
Mas então, Presidente Guebuza, não permita que na sua governação alguém tome o Povo por criança, bandoleiro, irresponsável e criminoso e que disso faça alarde público. E, especialmente, Presidente, que não se fale para o Povo e do Povo, mas que se fale com ele, verdadeiramente com ele.
Respeitosos cumprimentos e que a paz volte ao nosso seio.
Maputo, 02 de Setembro de 2010
Carlos Serra

Atenção aos boatos

Publicado: 2010-09-02 às 09:21
Crises sociais são sempre propícias à propagação de boatos. A propósito: Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3. e éd. , p. 6). Imagem reproduzida daqui.

Problemas com dois jornais

Publicado: 2010-09-02 às 09:12
Problemas com dois jornais: "Savana" e "Canal de Moçambique", o primeiro a braços com falta de papel e dificuldades em fazer circular os camiões, o segundo impresso mas sem que seja possível transportá-lo e vendê-lo, acrescendo que poucos compradores há hoje na cidade e o seu portal está temporariamente inoperacional.

Atenção ao vocabulário que usamos

Publicado: 2010-09-02 às 08:42
Diatribes, apodos, etiquetas desqualificantes, criminalização sistemática dos outros - tudo isso pode ter um efeito bem mais multiplicador de agravos e de raivas do que pensam os seus autores. Analisar e ponderar no vocabulário com que classificamos o social e os seus membros é também uma tarefa inadiável.
Adenda às 10:18: recorde esta minha postagem de 01 de Março de 2008, aqui.
Adenda 2 às 10:57: no blogue do Paulo Granjo: "Continua a admirar-me como é que algo tão evidente e estrutural ao pensamento e comportamento político da população "comum" continua a ser ignorado (quanto mais a ser levado em conta) pelas elites políticas locais. "
Adenda 3 às 11:11: agitação no Bairro do Zimpeto, jovens pedem que os preços baixem, imagens da STV.
Adenda 4 às 11:15: agitação para os lados da Mafalala, tiros, ambulâncias; também no Fomento, gás lacrimogéneo. Em partes da cidade houve gente que não dormiu.
Adenda 5 às 11:19: situação muito complicada na rua atrás do prolongamento de Lénine, junto à praça da OMM. Não há polícia e moradores temem que desta vez os manifestantes entrem nas casas e saqueim, é junto ao restaurante Micael.
Adenda 6 às 11:24: Email acabado de receber: "Saíram à rua hoje os alunos residentes no lar dos estudantes do Gurué. Os manifestantes exigem a re-ligação de energia eléctrica que faz falta há quatro meses. Os alunos foram impedidos de entrar no centro da cidade (provavelmente em direcção ao SDEJT/Governo do Distrito) pela PRM (ouvidos ruídos de arma) pelas 07:30 na rotunda do mercado do Gurué. Fonte do SDEJT revelou que os dirigentes do Governo do distrito estão reunidos com os alunos. Farei o acompanhamento do caso no tempo de almoço. "
Adenda 7 às 11:38: grande aparato policial na cidade da Beira, o jornalista Francisco Raiva afirmou há momentos que circulam viaturas jamais vistas naquela cidade (STV).
Adenda 8 às 11:47: "Conselho de ministros reunido de emergência" - título em rodapé no programa da TVM alusivo às manifestações.
Adenda 9 às 12: bichas nas padarias abertas para se comprar pão na cidade de Maputo; se não há, procura-se comprar bolos.
Adenda 10 às 12:03: confira vídeos aqui.
Adenda 11 às 12:07: é para mim fascinante analisar os prismas analíticos usados pelos comentadores da STV e da TVM: um mundo fabuloso de contrastes entre as duas estações televisivas.
Adenda 12 às 12:46: os presidentes dos municípios da Matola e de Maputo pronunciartam-se na Rádio Moçambique: o da Matola falou em tentativas de saque e num morto hoje; o de Maputo mostrou preocupação com os mercados não funcionando, o cemitério a ressentir-se (muitos trabalhadores não se apresentaram hoje), famílias a não poderem comprar o crédito de energia da credilec.
Adenda 13 às 12:51: vamos a ver de que maneira, um dia, os historiadores irão relatar e analisar o 5 de Fevereiro de 2008 e o 1 de Setembro de 2010.
Adenda 14 às 12:55: segundo uma jornalista da Rádio Moçambique, muitos jornalistas à espera dos resultados do encontro do conselho de ministros, em reunião orientada pelo presidente da República.
Adenda 15 às 15:33: mais trabalho, menos estragos e mais atenção ao plano quinquenal do governo - talvez este possa ser o resumo da reunião (havida hoje como de emergência) do conselho de ministros. Aqui.

Quatro pontos sobre as manifestações (2)

Publicado: 2010-09-02 às 07:53
Mais um pouco desta nova série.
Escrevi no número inaugural que iria abordar os seguintes quatro pontos a propósito das manifestações de ontem (recorde aqui e aqui): 1. Poder mobilizador dos celulares e dos sms; 2. Dessocialização e criminalização dos manifestantes; 3. Outorga das manifestações a desígnios obscuros e externos; 4. Concepção do anormal e da crise como coisas imediatas e não em processo.
Vamos, então, ao primeiro ponto. O celular é o modermo tam-tam, com ele ampliamos os órgãos dos sentidos e o alcance das mensagens de forma bem mais profunda do que faziam o tam-tam ou o chifre de palapala ou de cudo da nossa história. Um evento pode ser programado, organizado, em alguns segundos, através do mágico celular. A manifestação de ontem teve o préstimo da boca-a-boca, mas, também e talvez especialmente, do celular e do sms. Todavia, o mágico celular parece ser encarado por certos círculos como estrangeiro à cultura e às posses dos habitantes das periferias.
(continua)

Adenda às 9:01: ataques a bens de estrangeiros revelam um lado xenófobo nas manifestações de ontem. Mas também podem surgir lados raciais. A situação exige uma extrema prudência a vários níveis e uma grande capacidade de diálogo ao nível dos governantes.
Adenda 2 às 9:04: tenho algum receio de que o 1 de Setembro deste ano possa ser um pouco mais complicado do que o 5 de Fevereiro de 2008. Há, já, indicadores, de que as manifestações parece terem recomeçado hoje (por exemplo de novo no Bairro do Jardim). Em qualquer altura os governantes terão de saber falar ao seu povo, não culpá-lo ou apodá-lo de criminoso, os governantes terão de finalmente perceber isso.
Adenda 3 às 9:32: De uma postagem minha a 9 de Fevereiro de 2008: "Estruturar o campo de acção possível dos dominados: eis a tecnologia política básica de quem domina. Reduzir o impacto da acção estruturadora dos dominantes: eis a tecnologia política básica dos dominados. Tecnologia política, estratégias políticas, resistências. Um campo vasto de estudo. Mas entremos em coisas mais concretas e façamo-nos as seguintes duas perguntas: (1) que tipo de luta esteve em acto na revolta popular de Maputo? (2) quais foram as suas características? Nas próximas horas aqui deixarei uma breve resposta. " Recorde, então, uma série minha de 2008 em quatro números com o título Tipo e características de luta na revolta popular de Maputo, aqui.
Adenda 4 às 9:56: várias avenidas de Maputo com trânsito condicionado segundo a TVM.