E a página e o fogo, e a mó e o grão,
e o gume do machado e o cabelo cortado,
Deus tudo conservará, sobretudo as palavras
de perdão e de amor que são o âmago da sua voz.
Nelas o pulso forçado luta, nelas o osso range,
nelas a pá rasga a terra. Monocórdicas e surdas,
porque a vida é una, ressoam mais claras na boca
dos mortais do que no algodão em rama do céu.
Do outro lado dos mares saúdo a grande alma
que as encontrou e a sua parte mortal que agora
dorme na terra natal a que tu deste
o dom da palavra neste mundo surdo-mudo.
- Iosif Brodskii
(tradução de Carlos Leite)
in Paisagem com Inundação, Cotovia
O Melhor Amigo
Aquele amigo especial
| URL (Endereço): | http://omelhoramigo.blogspot.com | Visitas / Hits: | 455 / 1896 |
|---|---|---|---|
| Categoria: | Outros temas | 119601 (45 Inbound blogs / 98 Inbound links) | |
| Registado em: | 2007-05-23 | - | |
| Última actualização: | 2013-06-18 às 23:30 | - | |
| Pontuação: | Votar neste blog » | ||
Últimos posts neste blog:
No Centenário de Anna Akhmatova
Publicado: 2013-06-18 às 23:30
Publicado: 2013-06-18 às 22:05
Numa sociedade em que a arte, duma maneira geral, e a literatura, em particular, são propriedade ou prerrogativa duma minoria, o verdadeiro crime contra a literatura, contra o qual somos impotentes, é, para Brodskii, a não leitura dos livros. "Esse crime, uma pessoa paga-o com toda a sua vida; se o criminoso é uma nação, paga-o com a sua história. " Condenamos a perseguição de escritores, os actos de censura, a destruição dos livros pelo fogo, mas não chega, "somos impotentes perante o pior dos crimes: a não leitura dos livros". A atomização crescente da sociedade moderna, a redução das pessoas a zeros insignificantes, a nulificação dos destinos individuais massificados poderão, apesar de tudo, constituir um terreno propício para a emergência de mais consciências individuais? Sim, apesar de tudo. Para o mundo talvez seja tarde, mas para o indivíduo ? porque a linguagem, ou seja, a arte, ou seja, a literatura é o terreno próprio da sua liberdade ? existe sempre a possibilidade de se furtar ao "denominador comum" e ascender ao "numerador" da fracção que representa o mundo, em direcção à "autonomia, em direcção à privacidade". "Independentemente da entidade a cuja imagem tenhamos sido criados, somos já cinco biliões, e para o ser humano não existe outro futuro que não o enunciado pela arte. Doutra maneira, o que nos espera é o passado ? o passado político, em primeiro lugar, com todos os seus entretenimentos das políticas de massas. " Mas o bem-estar material geral duma sociedade não é garantia de mais liberdade, como sabemos, porque não é sinónimo de mais dignidade.
Excerto da introdução de Carlos Leite
in Paisagem com inundação (Iosif Brodskii), Cotovia
Excerto da introdução de Carlos Leite
in Paisagem com inundação (Iosif Brodskii), Cotovia
Publicado: 2013-06-17 às 16:30
Entre as tépidas coxas te palpita
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:
um coração felpudo que me incita,
mais que outro cordial e estremecido,
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.
E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,
um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.
- Tomás Segovia
(tradução de David Mourão-Ferreira)
in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:
um coração felpudo que me incita,
mais que outro cordial e estremecido,
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.
E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,
um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.
- Tomás Segovia
(tradução de David Mourão-Ferreira)
in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras
Publicado: 2013-06-17 às 05:33
Publicado: 2013-06-16 às 17:30
Aproveitei-me, confesso, de certos acidentes
Do mistério e de erros de cálculos celestes.
Aí está toda a minha poesia: eu decalco
O invisível (o que para vós é invisível).
Ao crime disfarçado em trajo desumano,
«Mãos ao ar!», gritei eu, «É inútil reagir»;
A encantos informes tratei de dar contorno;
Das astúcias da morte a traição informou-me;
Com tinta azul fiz aparecer, de súbito,
Fantasmas transformados em árvores azuis.
Será louco dizer que é simples ou sem perigo
Empresa semelhante. Incomodar os anjos!
Descobrir o acaso em flagrante delito
De batota, e as estátuas a tentarem andar!
Por cima de cidades que pareciam desertas,
Nos mirantes aonde somente chega a voz
Dos galos, das escolas, buzinas de automóveis
(Os únicos ruídos que das cidades sobem),
Surpreendi, provindos dos subúrbios do céu,
Assombrosos rumores, gritos de outra Marselha.
- Jean Cocteau
(tradução de David Mourão-Ferreira)
in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras
Do mistério e de erros de cálculos celestes.
Aí está toda a minha poesia: eu decalco
O invisível (o que para vós é invisível).
Ao crime disfarçado em trajo desumano,
«Mãos ao ar!», gritei eu, «É inútil reagir»;
A encantos informes tratei de dar contorno;
Das astúcias da morte a traição informou-me;
Com tinta azul fiz aparecer, de súbito,
Fantasmas transformados em árvores azuis.
Será louco dizer que é simples ou sem perigo
Empresa semelhante. Incomodar os anjos!
Descobrir o acaso em flagrante delito
De batota, e as estátuas a tentarem andar!
Por cima de cidades que pareciam desertas,
Nos mirantes aonde somente chega a voz
Dos galos, das escolas, buzinas de automóveis
(Os únicos ruídos que das cidades sobem),
Surpreendi, provindos dos subúrbios do céu,
Assombrosos rumores, gritos de outra Marselha.
- Jean Cocteau
(tradução de David Mourão-Ferreira)
in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras
2005-2013 © Webdados - Tecnologias de Informação, Lda. | Todos os direitos reservados
Desenvolvimento: Website Fácil | Alojamento web: ptAlojamento








