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diogovazpinto

O Melhor Amigo

Aquele amigo especial

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No Centenário de Anna Akhmatova

Publicado: 2013-06-18 às 23:30
E a página e o fogo, e a mó e o grão,
e o gume do machado e o cabelo cortado,
Deus tudo conservará, sobretudo as palavras
de perdão e de amor que são o âmago da sua voz.

Nelas o pulso forçado luta, nelas o osso range,
nelas a pá rasga a terra. Monocórdicas e surdas,
porque a vida é una, ressoam mais claras na boca
dos mortais do que no algodão em rama do céu.

Do outro lado dos mares saúdo a grande alma
que as encontrou e a sua parte mortal que agora
dorme na terra natal a que tu deste
o dom da palavra neste mundo surdo-mudo.



- Iosif Brodskii

(tradução de Carlos Leite)

in Paisagem com Inundação, Cotovia

Publicado: 2013-06-18 às 22:05
Numa sociedade em que a arte, duma maneira geral, e a literatura, em particular, são propriedade ou prerrogativa duma minoria, o verdadeiro crime contra a literatura, contra o qual somos impotentes, é, para Brodskii, a não leitura dos livros. "Esse crime, uma pessoa paga-o com toda a sua vida; se o criminoso é uma nação, paga-o com a sua história. " Condenamos a perseguição de escritores, os actos de censura, a destruição dos livros pelo fogo, mas não chega, "somos impotentes perante o pior dos crimes: a não leitura dos livros". A atomização crescente da sociedade moderna, a redução das pessoas a zeros insignificantes, a nulificação dos destinos individuais massificados poderão, apesar de tudo, constituir um terreno propício para a emergência de mais consciências individuais? Sim, apesar de tudo. Para o mundo talvez seja tarde, mas para o indivíduo ? porque a linguagem, ou seja, a arte, ou seja, a literatura é o terreno próprio da sua liberdade ? existe sempre a possibilidade de se furtar ao "denominador comum" e ascender ao "numerador" da fracção que representa o mundo, em direcção à "autonomia, em direcção à privacidade". "Independentemente da entidade a cuja imagem tenhamos sido criados, somos já cinco biliões, e para o ser humano não existe outro futuro que não o enunciado pela arte. Doutra maneira, o que nos espera é o passado ? o passado político, em primeiro lugar, com todos os seus entretenimentos das políticas de massas. " Mas o bem-estar material geral duma sociedade não é garantia de mais liberdade, como sabemos, porque não é sinónimo de mais dignidade.




Excerto da introdução de Carlos Leite

in Paisagem com inundação (Iosif Brodskii), Cotovia

Publicado: 2013-06-17 às 16:30
Entre as tépidas coxas te palpita

um negro coração febril, fendido,

de remoto e sonâmbulo latido

que entre escuras raízes se suscita:



um coração felpudo que me incita,

mais que outro cordial e estremecido,

a entrar como na casa em que resido

até tocar o grito que te habita.



E quando jazes toda nua, quando

ávida as pernas abres palpitando,

e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,



um coração podes abrir, e se entro

com a língua nas entranhas que me estendes,

posso beijar teu coração por dentro.




- Tomás Segovia

(tradução de David Mourão-Ferreira)

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras

Publicado: 2013-06-17 às 05:33

Publicado: 2013-06-16 às 17:30
Aproveitei-me, confesso, de certos acidentes
Do mistério e de erros de cálculos celestes.
Aí está toda a minha poesia: eu decalco
O invisível (o que para vós é invisível).
Ao crime disfarçado em trajo desumano,
«Mãos ao ar!», gritei eu, «É inútil reagir»;
A encantos informes tratei de dar contorno;
Das astúcias da morte a traição informou-me;
Com tinta azul fiz aparecer, de súbito,
Fantasmas transformados em árvores azuis.

Será louco dizer que é simples ou sem perigo
Empresa semelhante. Incomodar os anjos!
Descobrir o acaso em flagrante delito
De batota, e as estátuas a tentarem andar!
Por cima de cidades que pareciam desertas,
Nos mirantes aonde somente chega a voz
Dos galos, das escolas, buzinas de automóveis
(Os únicos ruídos que das cidades sobem),
Surpreendi, provindos dos subúrbios do céu,
Assombrosos rumores, gritos de outra Marselha.






- Jean Cocteau

(tradução de David Mourão-Ferreira)

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras